A evolução da investigação clínica, com participação de Portugal, tem permitido uma compreensão mais profunda dos mecanismos que conduzem à progressão da esclerose múltipla. Em entrevista, João Cerqueira, neurologista na Unidade Local de Saúde de Braga, detalha o impacto das novas classes de terapias imunossupressoras e imunomoduladoras, explorando como a inovação farmacológica e a monitorização por biomarcadores estão a transformar o prognóstico da incapacidade e a qualidade de vida dos doentes. Assista aos vídeos.
“O principal fator que tem contribuído para pôr Portugal no mapa dos estudos internacionais tem sido a criação, em vários hospitais, de centros dedicados à investigação clínica”, afirma João Cerqueira, acrescentando que, assim, é possível ter “estruturas de apoio que são sempre necessárias”. Além disso, atualmente, há “alguma flexibilidade em termos de gestão orçamental e dos contratos”, entre outros aspetos, algo que “tem sido progressivamente alargado a um conjunto de hospitais” que, consequentemente, passaram “a ser incluídos em ensaios clínicos”.
Para João Cerqueira, a harmonização das leis europeias de ensaios clínicos permitiu a Portugal competir em igualdade, tornando a qualidade dos centros o principal fator diferenciador: “Passámos a competir de igual para igual com os outros e, portanto, aí a qualidade dos centros passou a ser o fator diferenciador”.
Terapias de imunossupressão e coestimulação imune: o que diz a evidência?
No campo das novas terapias, o especialista distingue as abordagens anti-CD20, que promovem “uma depleção profunda” das células “portadoras do antigénio CD20, maioritariamente linfócitos B”, das terapêuticas que “modulam ou impedem a coestimulação imune”. Nestas últimas, as células permanecem, mas “deixam de ser tão facilmente ativadas, o que tem um efeito terapêutico muito interessante”. “Como não há destruição das células – só há, de facto, uma dificuldade maior para elas serem ativadas – conseguimos ter efeitos benéficos sem potencialmente tantos inconvenientes, tantos efeitos adversos”, explica o neurologista.
Relativamente à progressão da incapacidade, “uma característica da doença”, João Cerqueira destaca o papel dos inibidores da tirosina cinase de Bruton (BTKi), pela sua capacidade de “penetrar no sistema nervoso central e inibir a ativação da microglia”, com “impacto na progressão da incapacidade”. Entre os vários exemplos, o especialista menciona o tolebrutinib, “que é o que está mais avançado e em fase de submissão”, e cujos dados divulgados no final do ano passado “são muito interessantes” por demonstrarem que “é capaz de atrasar significativamente a progressão da incapacidade”.
“Estamos com grande esperança de que este tipo de fármacos e outros que, entretanto, estão a ser desenvolvidos, possam finalmente começar a fazer alguma coisa por estes doentes nesta fase da doença”, rematou.
O impacto da investigação clínica na vida dos doentes
Segundo João Cerqueira, “a investigação clínica em esclerose múltipla tem tido um impacto enorme na qualidade de vida dos doentes” e “permitiu o desenvolvimento de fármacos altamente eficazes a controlar a inflamação”. “Portanto, a maior parte dos doentes recém-diagnosticados com esclerose múltipla consegue fazer uma vida completamente normal e almejar um futuro praticamente sem doença”, enaltece.
No entanto, o neurologista ressalva que ainda faltam “armas eficazes para atacar a fase progressiva da doença”, particularmente “ao nível da atividade da microglia e das lesões inflamatórias crónicas que sabemos que existem no sistema nervoso central”. Além disso, diz João Cerqueira, “também é preciso fármacos que sejam capazes de modular o sistema imunitário de modo a que não seja preciso, de modo continuado, suprimi-lo”.
A par das necessidades anteriormente identificadas, João Cerqueira menciona aquela que, a seu ver, talvez seja a mais premente por, atualmente, não existir “nada para fazer aos doentes a partir do momento em que já tenham um défice, uma lesão”: precisamos de “terapias que promovam a remielinização e a recuperação dos danos já instalados”, que abram a “possibilidade de vir a ter um enorme impacto na qualidade de vida dos doentes que ainda não conseguimos ter”.
O papel dos biomarcadores e das ferramentas digitais
Na reta final da entrevista, João Cerqueira aborda dois aspetos importantes para a aferição da qualidade de vida dos doentes, do impacto funcional da doença e dos tratamentos.
Começando pelos biomarcadores, o especialista explica que, por um lado, “ajudam a perceber os mecanismos biológicos da doença”, e por outro, quando são “plasmáticos como os neurofilamentos ou a GFAP”, é possível “caracterizar melhor a doença”, bem como “definir fenótipos biológicos” e ajustar a terapêutica. Estes biomarcadores assumem, assim, um papel relevante que vai alterar a forma como a esclerose múltipla é gerida, estando já a acontecer a sua implementação em Portugal, “nomeadamente os neurofilamentos que já estão a começar a ser generalizados”.
Quanto aos biomarcadores digitais, o neurologista esclarece que têm como vantagem a medição contínua do estado funcional por parte do doente “sem ser só quando vai às consultas ou quando está perante um profissional de saúde”. “Dá-nos uma melhor ideia do estado funcional do doente e permite atuar mais precocemente, nomeadamente em termos de intervenções terapêuticas, sejam farmacológicas ou não-farmacológicas”, reforça. Neste âmbito, no que diz respeito à implementação na população portuguesa, há ainda algumas dificuldades e aspetos a melhorar, tal como mencionado pelo especialista.
Por fim, João Cerqueira fala sobre o uso da inteligência artificial (IA) e as suas mais-valias na gestão do elevado volume de dados digitais, desde que assente na transparência. Para o especialista, o futuro nesta área passará pela utilização de modelos que justifiquem o seu raciocínio clínico. “Acho que isto é muito importante e vai aumentar muito a confiança que todos nós temos na IA. E vai permitir generalizar o seu uso”, conclui.








